A ESTÁTUA
A alma
estendida no varal
a me conter de encantos.
Desalinhos no que sou
confundem o que sinto
num quintal de prantos.
Autônomos sentidos
que dirigem contratempos
nestes desencantos.
O cenário é um corpo nu
que desabrocha a virgindade
de um pecado necessário.
Refém das ilusões
acolho as contradições do espírito
para retalhar minhas vontades
que são crimes que me invadem.
E desafio o amor
como quem vai a um labirinto
que não tem saída.
Inusitado descaminho
do que não tem volta.
Infidelidades que ao poema
se acomodam
pra comporem versos brandos
sobre a vida vã.
Disforme no que fui
me encontro atrás da cura
para as deficiências
do que não senti.
O que supunha meu sustento
era embuste impedindo o meu intento,
era o medo das contradições
pra me manter menino
vendo um homem a se decompor
aprisionado em formas fixas
de um poema inacabado.
Salutares dores denunciam
minha estátua interior.
Olho o varal
e estendida a alma estanque
que se move à revelia da vontade
pelo vento de um sentir
que não se abala
porque é plena liberdade.
E o corpo nu em palco aberto
a me compor como um poema incerto
e a abalar a multidão
que aprisionada grita
estagnada por aquilo que não vê.
Sentenças e crenças que se mesclam
no auditório imaginário
desta ficção que aliena o que não somos.
Sopros que da alma eclodem
para sucumbir o que morreu
num picadeiro onde ninguém ri
porque o palhaço representa
um roteiro que não entendeu.
Mas a estátua aos poucos
bole a face e causa susto
pro auditório que a custo
arrebenta a parede deste imaginário
e sorridente acha imprudente
as cenas que não vê.
O teatro se desfaz
e a estátua sente o outro lado
do cenário que a prendia
e vê a vida e vê o dia
e à revelia da plateia sentenciada à ilusão,
vai procurar outro roteiro
para outro palco
numa nova ordem para a velha ficção.