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sexta-feira, 6 de maio de 2011

A pessoa



Em minhas lágrimas,
relativamente sujas,
estão as incertezas
de uma alma contraditória
e incompartilhável.

Trago no meu coração
o ópio das horas.
Indiferente a quase tudo
atormento-me
com a simples futilidade metafísica
dos que passam ao meu redor.

Imaginar que no dia seguinte
seguirei vivo
traz a insônia necessária
ao que quero compor.

Seria tão fácil se eu fosse os outros.
Dentro de mim, múltiplo,
a traição é sigilosa.

Do outro lado da minha janela
inúmeros donos de tabacaria
riem-se de mim
que não me sinto pessoa.

A ordem civil me transformou em nada.
Sintetizado em cumpridor de obrigações,
sem sensação nenhuma de vida,
desarmonizo-me
meio a uma harmonia falsa.

O universo se reconstruiria
em ideal de esperança
se o sorriso dos que passam
do outro lado da minha rua
não fosse
só um fato infeliz.

As tabacarias quase não existem mais,
mas os poetas são os mesmos
e se multiplicam em cruzes
que demarcam milenares aflições.

O pássaro que avisto no horizonte é irreal.
Melhor não ver
o que a parede do imaginário
sanciona como fato.

Acreditar que a vida
arrasta o destino das coisas
é ceder ao medo do invisível
e ir às representações
que amenizam nossos crimes inafiançáveis
e perfeitos.

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